Porfirias agudas

O que são as Porfirias agudas

As porfirinas são moléculas orgânicas que fazem parte de várias substâncias químicas importantes dos seres vivos, como a hemoglobina e a mioglobina (no sangue e músculos dos animais), e a clorofila (nas plantas). A hemoglobina, substância que dá a cor vermelha às células do sangue e o torna capaz de transportar oxigênio e gás carbônico, contém no centro da molécula uma porfirina denominada heme (ou hemo, ou hemina).

No organismo humano, portanto, a síntese (fabricação) do heme é fundamental para a produção da hemoglobina, e consequentemente dos glóbulos vermelhos do sangue. Na síntese do heme, ocorre uma sequência de reações químicas, controladas por enzimas, onde substâncias químicas vão sucessivamente sendo transformadas em outras, até gerar o heme. Nos pacientes com Porfirias, a deficiência de alguma das enzimas envolvidas na síntese do heme, faz com que o processo pare numa dessas etapas. Em consequência, além de interromper parcialmente ou totalmente a produção do heme, ocorre acúmulo das substâncias precursoras, que se tornam tóxicas para o organismo 1.

São descritas oito formas clínicas da porfiria, algumas agudas, ocasionando crises (“ataques”) com sintomas no sistema nervoso e outras cutâneas, gerando apenas manifestações na pele. Cada forma clínica das porfirias é causada pela deficiência hereditária de uma enzima específica, e qual enzima está deficiente é o que determina a forma clínica da doença.

As porfirias agudas são: Porfiria Intermitente Aguda, Porfiria Variegata, Coproporfiria Hereditária e Deficiência de ALAD. Dessas porfirias agudas, duas causam lesões de pele, e as outras duas, não. Todas, porém, podem causar crises agudas, as quais são mais frequentes em mulheres em idade fértil, principalmente se utilizarem determinados medicamentos, como estrogênios, corticóides.e outros, além de álcool e fumo 1,4.

Alguns pacientes com porfirias agudas podem passar toda uma vida sem apresentar nenhuma crise. Outros pacientes podem apresentar apenas raras crises isoladas ao longo da vida, porém existem casos em que os pacientes apresentam crises frequentes. As crises de porfiria são raras antes da puberdade e depois da menopausa, embora não sejam impossíveis de ocorrer 1,3,4.

 

Causa

As Porfirias agudas têm causa genética. Ou seja, quando o paciente herda o gene defeituoso de um dos pais ou de ambos. Porém, herdar o gene muitas vezes não significa que a pessoa apresentará crises. Neste caso, é preciso conhecer e evitar os fatores que podem causar os ataques 1.

Os fatores desencadeantes são o uso de um grande grupo de fármacos e hormônios, como a progesterona, de álcool e fumo. O estresse, o jejum prolongado e dietas de emagrecimento também podem desencadear as crises de Porfiria aguda 1,4.

 

Sinais e Sintomas

Nas crises de porfirias, o sintoma mais comum é uma dor abdominal intensa, com taquicardia, náuseas/vômitos e hipertensão, geralmente acompanhada de sintomas neurológicos (do sistema nervoso), como alterações de comportamento, agressividade anormal, alterações dos sentidos, neuropatia motora periférica progressiva e paresia, e nos casos mais graves, convulsões e coma.

As crises evoluem rapidamente e podem durar de horas a vários dias. Se não tratados a tempo, os casos mais graves podem levar à morte ou deixar consequências neurológicas permanentes 1. A urina dos pacientes durante as crises pode apresentar  coloração escura semelhante à da Coca-Cola, ou outras colorações, como rosa, castanho avermelhado  ou violeta 1,4.

 

Diagnóstico e Tratamento

O diagnóstico de Porfiria deve ser considerado em todos os adultos que apresentem sintomas não explicados, encontrados nas porfirias. Determinadas características clínicas são sugestivas: mulher em idade reprodutiva, dor abdominal, fraqueza muscular, hiponatremia e urina escura ou avermelhada 4.

Durante uma crise, deve-se pesquisar a presença de porfobilinogênio (PBG) na urina, através de um teste rápido que pode ser feito à beira do leito, no hospital. Se o porfobilinogênio estiver aumentado, começar o tratamento imediatamente.

Para determinar o tipo de porfiria, reservar a mesma amostra de urina para posterior dosagem dos níveis de porfobilinogênio e porfirina e medir os níveis de porfirina no sangue, nas fezes e porfobilinogênio desaminase nos glóbulos vermelhos. Exames complementares de atividade enzimática no sangue e pesquisa de mutações no DNA podem ser necessários para estabelecer o diagnóstico definitivo em casos duvidosos 1,3,4.

Diante de um quadro agudo, recomenda-se a hospitalização do paciente, para medidas gerais de suporte, como administração de hidratação intravenosa e glicose, além de monitorização, apoio respiratório e controle da circulação 3,4.

O tratamento específico das crises consiste na aplicação de uma substância chamada hemina, que é uma forma de heme, a fim de limitar a produção e o acúmulo dos precursores tóxicos e prevenir complicações neurológicas. A utilização de glicose isoladamente, menos eficaz e específica que a hemina 2 está indicada apenas para as crises mais leves (dor suave, ausência de paresia ou hiponatremia) ou até que a hemina esteja disponível 3,4.

 

Que especialista procurar

Geneticista, dermatologista, neurologista, hematologista.

Fontes:
1. Anderson K, Sassa S, Bishop D, Desnick R: Disorders of heme biosynthesis:
X-linked sideroblastic anemia and the porphyrias. In: Scriver C, Beaudet A, Sly
W, Valle D, Childs B, Kinzler K, Vogelstein B, eds. Metabolic and Molecular
Bases of Inherited Disease. New York: McGraw-Hill; 2001:2991-3062.
2. Lamon JM, et.al: Hematin therapy for acute porphyria. Medicine (Baltimore). 1979;58:252-69. [PMID: 449661]
3. Penelope S, et.al: Best practice guidelines on clinical management of acute attacks
of porphyria and their complications Ann Clin Biochem 2013; 50: 217-223
4. Anderson KE, Desnick RJ et al: Recomendações para o Diagnóstico e Tratamento das Porfirias Agudas Ann Intern Med. 2005;142:439-450

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