Pesquisa com participação de pesquisadores da FMUSP mostra que o sequenciamento genético tem ampliado as possibilidades de diagnóstico e pode contribuir para tratamentos mais precoces e personalizados
Por Redação Muitos Somos Raros
Um estudo com participação de pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) traz novas perspectivas para a investigação de crianças com baixa estatura sem causa aparente. Publicada no periódico científico European Journal of Endocrinology, a pesquisa demonstrou que testes genéticos modernos e mais abrangentes podem ajudar a identificar a origem do atraso no crescimento em um número significativo de casos, ampliando as possibilidades de diagnóstico e manejo clínico.
A pesquisa consistiu em uma revisão sistemática de 134 estudos publicados nas últimas décadas, envolvendo milhares de crianças ao redor do mundo. O objetivo foi avaliar a eficiência de diferentes exames genéticos na investigação da baixa estatura de causa não estabelecida.
O que é a baixa estatura?
A baixa estatura é caracterizada por um crescimento significativamente inferior ao esperado para a idade e o sexo da criança. Embora, em muitos casos, esteja relacionada a fatores familiares ou constitucionais, algumas crianças apresentam alterações genéticas ou condições médicas que podem comprometer o desenvolvimento e exigir investigação especializada.
O que o estudo mostrou?
Até poucos anos atrás, a investigação genética da baixa estatura era baseada na análise de um único gene por vez, um processo demorado e com baixa capacidade de resposta. Segundo o estudo, esse método tradicional consegue identificar a causa do problema em apenas cerca de 4,7% dos casos.
As tecnologias de Sequenciamento de Nova Geração (NGS), no entanto, apresentaram resultados mais expressivos.
Os painéis genéticos, que analisam múltiplos genes simultaneamente, alcançaram uma taxa de diagnóstico de 21,6%. Já o sequenciamento do exoma, que avalia as regiões do genoma responsáveis pela produção de proteínas, identificou a causa da baixa estatura em 33,3% das crianças avaliadas.
Os pesquisadores também observaram que determinadas características clínicas podem aumentar significativamente as chances de o exame encontrar uma resposta. Entre elas estão alterações no rosto (dismorfismo facial), com índice de diagnóstico de 68,2%; anormalidades nos ossos ou no esqueleto, com taxa de 61,1%; características sindrômicas, com múltiplos sinais associados, em 59,6% dos casos; e deficiência intelectual, com resultados positivos em 57% das crianças avaliadas.
Mesmo entre crianças que apresentam apenas a baixa estatura, sem outros sinais aparentes, o sequenciamento do exoma conseguiu identificar a causa do problema em 15,1% dos casos.
Entre os genes mais frequentemente associados ao atraso no crescimento estão PTPN11, ACAN e FGFR3, responsáveis por processos importantes relacionados ao desenvolvimento ósseo e das cartilagens.
Para o Prof. Dr. Alexander Augusto de Lima Jorge, professor associado da disciplina de Endocrinologia e Metabologia da FMUSP e um dos autores do estudo, os resultados reforçam a importância de tornar os testes genéticos mais acessíveis na prática clínica.
“Identificar a raiz do problema não serve apenas para dar um nome à condição, mas orienta diretamente o tratamento médico, evita a realização de exames desnecessários e exaustivos e permite que as famílias tenham um aconselhamento genético adequado sobre os riscos de transmissão para futuros filhos”, destaca.
Segundo os pesquisadores, os dados do estudo também contribuíram para a elaboração de novas diretrizes e consensos internacionais voltados à avaliação de crianças com problemas de crescimento.
Os autores destacam que, embora nem toda baixa estatura esteja relacionada a uma condição genética ou doença rara, a ampliação do acesso aos testes genéticos pode contribuir para diagnósticos mais precisos e precoces, além de possibilitar uma abordagem mais individualizada para crianças e famílias em busca de respostas.
O estudo completo está disponível no periódico científico European Journal of Endocrinology.





