Doença rara pode se manifestar desde a infância e afetar diferentes órgãos. Diagnóstico precoce pode evitar danos neurológicos

A xantomatose cerebrotendínea (CTX) é uma doença genética rara que pode afetar diferentes órgãos e, principalmente quando não diagnosticada e tratada precocemente, pode causar comprometimento neurológico progressivo e incapacitante.
Apesar de sua gravidade, existe uma característica particularmente importante: é uma doença tratável, e o diagnóstico precoce pode modificar significativamente sua evolução.
O que causa a CTX e como ela é herdada
A CTX é causada por alterações nas duas cópias do gene CYP27A1, responsável pela produção de uma enzima fundamental para a síntese dos ácidos biliares.
Essas substâncias são produzidas pelo fígado, fazem parte da bile e desempenham funções importantes, inclusive na digestão e no metabolismo das gorduras.
Quando essa enzima não funciona adequadamente, a produção normal de ácidos biliares fica comprometida e ocorre o acúmulo de substâncias potencialmente tóxicas no organismo, entre elas o colestanol, que não deve ser confundido com o colesterol.
A doença apresenta um padrão de herança chamado autossômico recessivo: para desenvolver a CTX, a pessoa precisa herdar uma alteração genética tanto do pai quanto da mãe.
Sua frequência exata ainda não é conhecida, mas estima-se uma prevalência ao redor de um caso para cada 100 mil habitantes, com variações entre diferentes populações e regiões geográficas. Homens e mulheres podem ser igualmente afetados.
Uma doença com muitas faces
Um dos grandes desafios é que a CTX não se manifesta da mesma maneira em todas as pessoas. É uma doença multissistêmica e seus primeiros sinais podem surgir desde o período neonatal até a vida adulta.
Além disso, diferentes manifestações podem aparecer separadas por muitos anos, dificultando a percepção de que fazem parte de uma única doença.
Sinais que surgem da infância à vida adulta
Algumas pistas podem surgir muito cedo. Recém-nascidos podem apresentar icterícia prolongada. Durante a infância, uma manifestação característica é a diarreia crônica, que pode começar entre os 5 e 10 anos e comprometer o crescimento e o ganho de peso.
Na adolescência, outro sinal de alerta é o aparecimento de catarata bilateral precoce, muitas vezes entre 10 e 20 anos — uma idade muito incomum para uma condição que, na população geral, é muito mais frequente entre idosos.
Na vida adulta podem surgir os chamados xantomas, depósitos de gordura que formam nódulos ou massas principalmente nos tendões, como o tendão de Aquiles, os tendões próximos aos joelhos e os das mãos.
Os pacientes também podem desenvolver aterosclerose precocemente, aumentando o risco de complicações cardiovasculares.
Sintomas neurológicos e evolução sem tratamento
As manifestações neurológicas geralmente aparecem no final da adolescência ou no início da vida adulta, embora algumas crianças apresentem dificuldades de aprendizagem ou alterações do desenvolvimento cognitivo antes disso.
Entre os sintomas estão perda de equilíbrio e coordenação — denominada ataxia —, rigidez e aumento do tônus muscular nas pernas, fraqueza muscular, perda de sensibilidade nos braços ou pernas e dificuldade progressiva para caminhar.
Também podem ocorrer alterações cognitivas, com perda de habilidades previamente adquiridas, dificuldade para ler, realizar cálculos, comunicar-se ou executar tarefas complexas. Alguns pacientes apresentam crises epilépticas e manifestações psiquiátricas, incluindo depressão, ansiedade e sintomas psicóticos.
Sem tratamento adequado, o comprometimento neurológico tende a ser progressivo e degenerativo. Nos estágios mais avançados, o paciente pode perder a capacidade de caminhar e de se comunicar, apresentar dificuldades importantes para engolir e respirar e tornar-se dependente de outras pessoas para suas atividades cotidianas.
Por que o diagnóstico demora
O grande problema, entretanto, não é a inexistência de métodos diagnósticos. Uma vez que existe a suspeita clínica, o diagnóstico pode ser confirmado por teste genético, demonstrando alterações patogênicas nas duas cópias do gene CYP27A1. O principal obstáculo é justamente pensar na doença.
Como muitos de seus sintomas — especialmente diarreia, dificuldades escolares ou alterações da marcha — são comuns a diversas outras condições, os pacientes frequentemente passam por diferentes especialistas e investigações antes que as manifestações sejam reconhecidas como partes de uma mesma doença.
O diagnóstico pode ocorrer muitos anos depois dos primeiros sintomas, quando o comprometimento neurológico já está estabelecido.
Por isso, reconhecer a combinação de diarreia crônica desde a infância, catarata em pessoas jovens, alterações neurológicas progressivas e xantomas nos tendões deve despertar a atenção para a possibilidade de CTX.
Tratamento e a importância de agir cedo
O diagnóstico precoce é especialmente importante porque permite aconselhamento genético da família, tratamento das diferentes manifestações clínicas e, sobretudo, o início de terapias capazes de interferir no mecanismo da doença.
Tratamentos baseados na reposição de ácidos biliares, particularmente o ácido quenodeoxicólico (CDCA) e o ácido cólico, podem reduzir a produção e o acúmulo de metabólitos tóxicos, como o colestanol.
Quando o tratamento é iniciado precocemente, especialmente antes do desenvolvimento de comprometimento neurológico significativo, é possível modificar de maneira importante a história natural da doença.
Na xantomatose cerebrotendínea, reconhecer cedo os sinais não significa apenas dar um nome à doença: pode representar a oportunidade de prevenir danos neurológicos irreversíveis e preservar a autonomia e a qualidade de vida do paciente.
*Paulo Sgobbi é médico e neurologista clínico formado pela Escola Paulista de Medicina e diretor Médico da PSEG Centro de Pesquisa Clínica.
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Publicação original: https://saude.abril.com.br/medicina/xantomatose-cerebrotendinea-reconhecer-os-primeiros-sinais-faz-diferenca/





